
O anúncio da ocupação do Centro Administrativo do Distrito Federal (Centrad) pelo GDF, feito na segunda-feira (1º) pela governadora Celina Leão, reacende a expectativa de moradores e trabalhadores de revitalização na região. Com a transferência de secretarias e o aumento do fluxo de servidores, a medida deve impulsionar o comércio local e reforçar a segurança pública.
A iniciativa integra a estratégia do governo de reduzir gastos com aluguéis e otimizar a estrutura administrativa. A primeira pasta a ser transferida deve ser a Secretaria de Obras e Infraestrutura (SODF), com mudança prevista em até 90 dias.
Inaugurado em 2014, o Centrad tem 182 mil metros quadrados distribuídos em 16 edifícios, mas nunca foi completamente ocupado e, ao longo dos anos, enfrentou uma série de entraves jurídicos. O GDF explica que está sendo elaborado um planejamento para viabilizar a ocupação total, incluíndo o gabinete da governadora.
Localizado entre Ceilândia e Samambaia, o complexo fica ao lado do terminal rodoviário de Taguatinga, uma estrutura provisória que opera, na prática, de forma permanente desde 2013. Há nove anos no local, a comerciante Andreia Barbosa, de 51 anos, dona de uma loja de mochilas e malas, vê o anúncio com cautela. Para ela, a economia com aluguéis pode ser positiva, mas as reformas necessárias no Centrad levantam dúvidas sobre novos gastos públicos.
“Não é a primeira vez que anunciam que vão reformar e ocupar. Já gastaram muito dinheiro, e agora vão gastar mais. Sinceramente, acho que pode acabar sendo só promessa. Não acredito que o espaço será realmente ocupado”, afirma.
Apesar da desconfiança, Andreia reconhece o possível impacto positivo no movimento do comércio. Ela ressalta, no entanto, que a mudança precisa vir acompanhada de melhorias na infraestrutura da rodoviária, promessa que se arrasta há anos sem ser cumprida.
“Com mais servidores, o comércio pode crescer. Mas há incerteza, porque nossa estrutura é provisória. Se houver reforma e ampliação, principalmente na rodoviária, que hoje é pequena para os ônibus, o impacto pode ser muito positivo”, diz.
A comerciante também cobra reforço na segurança. Segundo ela, o local conta apenas com dois vigilantes, sem poder de atuação efetiva. “Falta policiamento. Há muitos moradores de rua, o que gera preocupação com furtos. Eu não fico aqui à noite por medo”, relata.
Dono de uma lanchonete e há mais de 30 anos na região, José Raimundo de Sá, de 55 anos, também demonstra desconfiança. Desde a inauguração do Centrad, ele afirma ouvir promessas recorrentes de ocupação.
[FOTO DO COMERCIANTE JOSÉ RAIMUNDO DE SÁ]

“Todo ano dizem que agora vai, mas o tempo passa e nada muda. Já são quase 13 anos com o espaço abandonado, precisando de recuperação total. Tomara que desta vez aconteça, porque seria melhor para todos nós”, afirma.
Para ele, a chegada de servidores pode pressionar por melhorias na rodoviária e no entorno. “Se houver reforma e ampliação, o fluxo de pessoas vai aumentar, e isso melhora o movimento para quem trabalha aqui”, conclui.
O olhar da população local
O educador físico Victor Hugo Silva de Souza, de 26 anos, funcionário do DF Legal e morador da QNM 33, em Ceilândia Sul, avalia que a ocupação do Centrad pode facilitar o deslocamento dos servidores e melhorar o acesso ao serviço público na região.

Ele destaca a localização estratégica do complexo, entre Taguatinga e Ceilândia, além da presença da estação de metrô Centro Metropolitano e da avenida Elmo Serejo, que conecta a região à Estrada Parque Taguatinga (EPTG).
“Eu trabalho na sede da DF Legal, no CIA, e é muito afastada em termos de transporte público e locomoção. Então, acredito que o Centrad vai ser muito útil justamente por essa facilidade de acesso. A localização também ajuda. Fica entre Taguatinga e Ceilândia, o que tende a facilitar bastante o deslocamento. Acredito que a palavra seja essa, um facilitador”.
Por outro lado, ele aponta a segurança como principal preocupação. Segundo Victor, há relatos de furtos e assaltos no entorno, especialmente em pontos de ônibus e na estação de metrô. “Os arredores são um ponto delicado. Há muitas ocorrências de assaltos na região. Onde moro, já ouvi depoimentos de pessoas que foram vítimas de furto e roubo”, diz.
O morador de Ceilândia também cita a presença de pessoas em situação de rua na área e conta episódios de insegurança. “Há grande presença de pessoas em situação de rua, inclusive na região entre o metrô e a avenida Elmo Serejo, onde há um gramado. Ali, é comum ver acampamentos. Às vezes há confusão durante a madrugada, incêndios e outras ocorrências. É uma região que precisa de uma repaginada, principalmente na segurança”, completa.
Oferta de transporte no entorno
Em resposta ao Jornal de Brasília, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) informou que técnicos da pasta devem se reunir na próxima semana com representantes da concessionária Marechal, responsável pela operação no local, para discutir a ampliação da rede de atendimento.
A Semob destaca que 77 linhas de ônibus atendem a região do complexo, com conexões para diferentes regiões administrativas do DF, incluindo linhas circulares, metropolitanas e de maior capacidade operacional. O local também é atendido pela estação Centro Metropolitano do Metrô.
A Administração Regional de Taguatinga, procurada pela reportagem, optou por não se manifestar sobre a ocupação do Centrad.
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