Crianças trocam a sala de aula por trilhas, teatro e educação ambiental em Samambaia

dsc01600.jpg

Por alguns dias, caderno, quadro e carteira dão espaço a árvores, trilhas, animais e até personagens de teatro. No Parque Três Meninas, em Samambaia, estudantes da rede pública do Distrito Federal encontram uma sala de aula diferente, onde o conteúdo aprendido na escola ganha forma em meio ao Cerrado. A experiência faz parte do projeto Com Cultura e Com Afeto - Arte e Conscientização, que deve receber aproximadamente dois mil alunos até o dia 28 de agosto.

As visitas reúnem estudantes de escolas de Samambaia, Ceilândia, Taguatinga e regiões próximas. Durante o passeio, as crianças percorrem o parque acompanhadas por monitores, conhecem um pouco da história do local e conversam sobre preservação, animais do Cerrado, coleta seletiva e reciclagem. A programação inclui ainda o espetáculo de teatro de bonecos Papo de Lixo, lanche e a entrega de materiais educativos e reutilizáveis.

Aos 9 anos, a estudante Sara Martins Pereira, do 4º ano de uma escola de Ceilândia, resumiu a experiência de maneira simples. “Eu gostei muito porque a gente aprendeu várias coisas e também aprendeu a história do Parque das Três Meninas”, contou. Entre tudo o que viu durante o passeio, ela já sabe o que pretende guardar: “Aprendi que tem que cuidar do meio ambiente e também que a gente tem que cuidar dos animais”.

A colega Mariana Gomes Fernandes, também de 9 anos e do 4º ano, gostou especialmente da possibilidade de aprender fora da escola. “Eu gostei muito porque é na natureza. Tem muitas coisas para aprender, para ver também”, disse. Ao fim da atividade, ela apontou a reciclagem como um dos principais aprendizados que pretende levar para casa.

Do livro para a trilha

dsc01481 (1).jpg
Foto: Divulgação/ Com Cultura e Com Afeto

Para quem acompanha os estudantes todos os dias, a saída também ajuda a dar outro significado ao que já vinha sendo trabalhado. A professora Larissa Carvalho percebeu isso enquanto observava os alunos reconhecerem, no parque, assuntos vistos anteriormente em livros, cadernos e vídeos.

“A escola é um espaço em que a gente trabalha basicamente tudo que fala sobre conteúdo, mas aqui a gente vê na prática”, explicou. Segundo ela, durante a visita, as crianças apontavam elementos da vegetação e dos animais e faziam a ligação com aquilo que já haviam estudado. Para a professora, a experiência é especialmente importante por colocar os alunos em contato direto com o Cerrado, o bioma em que vivem.

E a visita não deve terminar quando o ônibus retornar à escola. Larissa conta que o passeio já despertou ideias para novas atividades em sala, inclusive a possibilidade de desenvolver um projeto de conservação. “Tudo isso já dá um ânimo de eles continuarem aplicando aquilo que aprendem sobre ecologia, sobre cuidado com o ambiente”, afirmou.

A troca também surpreendeu quem chegou ao parque preparado para ensinar. A monitora Ana Clara das Neves, de 24 anos, passou por duas semanas de formação antes de receber as turmas, com atividades sobre recreação, educação ambiental, Cerrado e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Na prática, porém, descobriu que os pequenos já traziam bastante conhecimento na bagagem.

“A princípio, eu vinha com um pensamento de que ia passar muito conhecimento para elas, mas, impressionantemente, as crianças já vêm super preparadas”, relatou. Segundo Ana Clara, muitos alunos já conheciam animais do Cerrado e conceitos de coleta seletiva. “Foi mais uma troca realmente. Elas contribuíram demais pelo processo.”

Os próprios monitores foram escolhidos levando em consideração a relação com a região e a afinidade com temas como educação ambiental e recreação. De acordo com o idealizador Alan Mariano, jovens de Samambaia e de áreas próximas passaram por formação específica antes de conduzir as visitas. A proposta, segundo ele, também é fazer com que as crianças conheçam os espaços da própria cidade e compreendam a importância de valorizar o Cerrado.

Meio ambiente também vira teatro

No caminho para tornar o assunto mais próximo do universo infantil, até o lixo vira personagem. O espetáculo Papo de Lixo utiliza bonecos para falar sobre descarte correto, reciclagem e o trabalho realizado pelos garis. A ideia é transmitir informações importantes sem deixar de lado a brincadeira.

“É um espetáculo bem lúdico, onde a gente consegue levar a mensagem tanto do descarte, do uso correto dos lixos, como da reciclagem”, explica Maria Clara Abreu, integrante do projeto. Segundo ela, a reação das crianças é imediata: elas se envolvem com os personagens e, depois da apresentação, comentam que pretendem separar os resíduos também em casa.

A educação ambiental, aliás, já fazia parte do repertório de alguns alunos antes mesmo da visita. Augusto Rosa, de 9 anos, contou que participou da criação de um jogo sobre reciclagem em um projeto de programação. Na atividade, o jogador precisa recolher resíduos para acumular pontos. O estudante também relacionou a experiência à proteção da vida terrestre, às árvores, ao desmatamento e ao descarte de lixo nos rios.

Durante a passagem pelo Parque Três Meninas, Augusto encontrou novas referências para aquilo que já vinha estudando. Disse ter conhecido mais sobre os animais e comemorou a possibilidade de aprender enquanto brincava. “Foi bem legal, gostei muito”, contou.

Aprendizado que segue para a escola

Além das atividades no parque, cada estudante recebe uma ecobag, um ecocopo reutilizável e uma cartilha didática. O material reúne conteúdos sobre o Parque Três Meninas, o Cerrado e a coleta seletiva e foi pensado justamente para permitir que o assunto continue sendo trabalhado depois da visita.

“A cartilha foi confeccionada para o projeto para que eles possam levar e os professores possam dar continuidade nesse trabalho que é iniciado aqui”, explica a idealizadora Marília Abreu. A iniciativa também oferece transporte e lanche aos participantes.

Ao final da atividade, cada escola recebe ainda uma muda de árvore nativa para um plantio coletivo. A proposta é deixar uma lembrança que vá além do passeio e transformar o contato de algumas horas com o parque em um compromisso mais duradouro com o Cerrado.

Em sua terceira edição, o Com Cultura e Com Afeto busca justamente aproximar os estudantes dos espaços públicos e do patrimônio ambiental da região. Para Alan Mariano, conhecer o parque também significa reconhecer que aquele espaço pertence à comunidade. A intenção é que as crianças entendam o Cerrado não apenas como um conteúdo dos livros, mas como o lugar onde vivem, e do qual também são responsáveis por cuidar.

O projeto é patrocinado pela Neoenergia Brasília e pelo Instituto Neoenergia, por meio do Edital Transformando Energia em Cultura, via Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal. As atividades seguem até 28 de agosto e são destinadas às escolas públicas participantes.



from Brasília – Jornal de Brasília https://ift.tt/9wpyxDN
via IFTTT https://ift.tt/SukyTVA

Postar um comentário

0 Comentários