A cabeleireira Carla Maria de Almeida, 41 anos, conta que,
aconselhada por coveiros que trabalham no Cemitério de Taguatinga,
diminuiu as visitas ao túmulo do pai, morto há mais de 20 anos. Com medo
de assaltos relatados por funcionários e já tendo visto pessoas usando
drogas sobre as sepulturas em épocas de baixa frequência, ela passou a
visitar o cemitério, nos últimos anos, apenas na véspera do Dia de
Finados, para evitar o tumulto normalmente verificado no feriado.
"Os próprios coveiros nos orientaram a não vir quando não tivesse
movimento. Eles sempre diziam que nós éramos muito corajosas, porque é
muito perigoso [visitar o local] quando não tem ninguém", disse ela, que
estava acompanhada da mãe, a aposentada Ivone de Almeida, 64 anos.
"Desistimos de levar susto e agora a gente só vem nesta época. Em outros
dias, se não tiver sepultamento, não se vê um vivo por aqui. É muito
deserto", acrescentou.
No mesmo cemitério, o funcionário público Valdir Benevides, 48 anos,
disse ter se assustado com as condições de conservação. Ele aproveitou a
ida ao local para o sepultamento de um conhecido, na última
quinta-feira (30), e visitou o túmulo do pai. "O gramado lá da frente,
na entrada do cemitério, está mais bem cuidado, bonitinho, mas aqui
atrás está feio demais. A grama parece que não é cortada há um tempo,
tem muito lixo acumulado, flores secas que ninguém retira. Esperava
encontrar condições melhores", disse. Em alguns túmulos próximos ao de
seu pai, garrafas PET, copos descartáveis, vasos quebrados e galhos se
acumulavam.
Insatisfeita com a manutenção feita pela empresa responsável, Iraci
decidiu se responsabilizar pelo serviço e contratou um jardineiro
autônomo para limpar os arredores do túmulo, regar e podar as plantas.
"Esses [túmulos] que estão mais bem cuidados é porque as famílias
assumiram e contratam um jardineiro para tomar conta. É o jeito, porque
não dá para deixar o túmulo de uma pessoa que foi tão importante para a
família nesse estado de abandono", lamentou, apontando para uma
sepultura rachada perto do túmulo de seu marido. Pouco mais à frente,
também havia túmulos com acúmulo de folhas, lixo e vasos de planta
descartados.
O jardim que fica na entrada no cemitério apresenta boas condições,
com grama baixa e placas de identificação das sepulturas bem
conservadas. Ao chegarem ao local, os visitantes também são orientados,
por uma placa, a não levar flores em vasos, para evitar a proliferação
de mosquitos, especialmente da dengue. Outras placas espalhadas pelo
cemitério, no entanto, apresentavam sinais de deterioração.
Para o jardineiro autônomo Márcio Vieira dos Santos, 31 anos, que
trabalha no cemitério da Asa Sul há quase duas décadas, o maior problema
para quem exerce a atividade é a presença de escorpiões e baratas. "Não
sei se tem muito como ser diferente, porque é um lugar onde tem corpo
enterrado, mas quem trabalha aqui tem medo das picadas. Eu mesmo já
levei de escorpião. É um perigo constante, mas tenho que sustentar meu
filho de 4 anos, então tenho que trabalhar", disse ele, que cuida do
túmulo de 50 famílias e cobra R$ 50, de cada uma, pelo serviço. A
atividade, desvinculada da empresa responsável pelo cemitério, inclui
manutenção de jazigos, limpeza dos arredores do túmulo, rega e poda das
plantas.
Situação semelhante foi relatada pelo também jardineiro autônomo
José de Souza Oliveira, 43 anos. "Eu tenho muitos colegas que já foram
picados por escorpião aqui. A gente trabalha com medo, mas tem que
sobreviver", disse ele, que reclamou, ainda, da falta de água. "Para
fazer o nosso trabalho e regar as plantas, por exemplo, a gente tem até
que comprar [água de] caminhão-pipa", disse.
Já no Cemitério de Sobradinho, o servidor público Paulo Diniz disse
não ter reclamações relativas ao local. Ele aproveitou a última
quinta-feira (30) para visitar antecipadamente o túmulo do pai e de dois
irmãos. "Eu não tenho nada a questionar. Não sei como é lá para o
final, mas aqui na entrada é tudo bem tranquilo, até porque venho e já
vou embora, não fico muito", contou.
Em relação à segurança, a empresa destacou que, por ocuparem área
pública, os cemitérios não podem ter o acesso restrito, mas ressaltou
que, quando alguma movimentação estranha é percebida pelos funcionários,
a polícia é acionada. Ainda segundo a concessionária, equipes com
seguranças desarmados trabalham em todos os cemitérios 24 horas por dia.
Além disso, há câmeras de vigilância instaladas nas áreas onde há
construções.
Fonte: Agência Brasil

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