
O convidado desta edição do JBr Entrevista é o presidente regional do Partido Verde do Distrito Federal e ex-secretário de Meio Ambiente do DF, Eduardo Brandão. Nesta edição, vamos conversar com líder partidário sobre o futuro das políticas ambientais, a proteção animal com um “Tinder” para quem quer adotar um pet e sobre a ciração de creches para idosos como política pública distrital. Na última parte, falaremos ainda da “desunião” da esquerda e das eleições deste ano.
Quem é Eduardo Brandão?
Eu sou um candango nato. Meus pais vieram para Brasília para a construção da Barragem do Paranoá. Aqui me criei, aqui tive meus filhos e meus netos. Sou formado em Engenharia Civil pela Universidade de Brasília (UnB). A vida inteira me envolvi com a questão ambiental e com a questão da sustentabilidade — principalmente tentando realizar projetos que façam com que o coletivo fique um pouco melhor.
O senhor é presidente do PV há algum tempo. Queria que o senhor contasse um pouquinho da sua trajetória.
Na verdade, eu comecei no PV querendo ajudar. A minha pauta sempre foi a utilização de energia solar, área com a qual me envolvi muito. Nós já tínhamos empresas de energia solar e de aproveitamento energético lá atrás. Quando entrei no PV, inclusive, avisei: "Venho para ajudar, mas não quero ser candidato e nem dirigente". Acabei passando a dirigente regional, depois a candidato. Já fui candidato a vice-governador e vice-presidente nacional do partido. É aquela coisa: isso vai te envolvendo, pois é um partido de causa. É um partido que tem um fundo muito forte na questão do ideário partidário. Eu estava ali para ajudar.
O senhor foi secretário e um dos responsáveis pela criação de diversos parques no Distrito Federal. Como o senhor avalia hoje o Distrito Federal?
Olha, essa é uma pauta da qual temos muito orgulho de ter participado. Na época, nós criamos um projeto chamado "Brasília Cidade Parque", cujo objetivo era implantar e revitalizar todos os parques do Distrito Federal. Em três anos e meio, implantamos mais de 15 parques e revitalizamos outros dois em um processo muito rápido, aproveitando os recursos de compensação ambiental e florestal. Infelizmente, as coisas não continuaram como desejávamos, porque esse deveria ser um projeto de Estado, e não de governo. Os projetos de Estado precisam ser perenes, precisam continuar. Conversando com o pessoal do próprio Ibram (Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do DF) recentemente, um deles comentou: "Poxa, nos três anos e meio em que vocês estiveram lá, fizeram mais do que nos últimos dez anos". De certa forma, isso nos orgulha, mas também nos deixa muito tristes pelo abandono atual.
Qual outra política o senhor sente que poderia ter continuidade?
As políticas de resíduos sólidos. Nós iniciamos o projeto do Aterro Sanitário de Samambaia para podermos fechar o lixão, e todo o projeto de resíduos sólidos do DF foi escrito naquela época. Hoje, temos problemas seríssimos. No próprio aterro de Samambaia, há um problema gravíssimo de tratamento de chorume. Estão acabando com o Rio Melchior, estão matando o rio. Então, infelizmente, a situação real não está como gostaríamos.
Explique rapidamente como funcionava a compensação ambiental, pois esse foi o grande salto que permitiu a criação dos parques.
A compensação ambiental é um instrumento que pode ser utilizado tanto no contexto federal quanto no regional. Todo empreendimento que causa um impacto ambiental tem esse impacto mensurado em um valor financeiro. O que nós fizemos? Como a lei nos permitia fazer uma permuta, dissemos ao empreendedor: "Não queremos que você recolha esse dinheiro aos cofres públicos, porque ele acaba não voltando para o meio ambiente. Queremos que você faça a compensação em bens ou serviços". Então, mensuramos o valor que ele teria de investir na unidade de conservação ou no parque da região impactada, e ele mesmo executava a obra. Por isso era tão rápido. Isso poderia ter tido continuidade; era simples continuar para garantir que todas as áreas ambientais do DF tivessem o mínimo de infraestrutura e cuidado.
E ele se expandia?
Sim. O mesmo vale para a compensação florestal. Para cada espécie nativa suprimida, é preciso plantar dez outras. Naquela época, lançamos o projeto "Tempo de Plantar". E por que esse nome? Porque muitos políticos adoram tirar fotos plantando em época de eleição, mas plantam na seca e as mudas morrem. Existe um tempo certo para plantar, que é logo antes do período das águas, além da necessidade de cuidar e monitorar a espécie para que ela se desenvolva.
Uma das bandeiras do PV-DF é a política para o idoso. Qual é a proposta do partido hoje para essa população que tem crescido tanto?
Com o desenvolvimento da ciência, estamos vivendo mais, e viver mais exige um cuidado maior. Hoje, nossa política é voltada com muita força para o idoso vulnerável. É aquele idoso que não pode mais ficar sozinho e precisa de um cuidador. Antigamente, as famílias eram muito grandes; com muitos filhos, sempre sobrava alguém para cuidar dos pais. Hoje isso não existe mais, gerando um problema social sério. A mulher na nossa sociedade sofre muito com isso, pois ela começa criando os filhos, depois ajuda a criar os netos e, por fim, precisa cuidar dos pais. Para as classes menos favorecidas, que não têm condições de contratar um profissional, isso virou um drama familiar. Tivemos milhares de denúncias de maus-tratos recentemente, muitas vezes vindas da própria família sobrecarregada. O familiar precisa sair para trabalhar, o idoso perde a autonomia e não pode ficar só. Se o familiar não trabalha, falta recurso; se trabalha, o idoso fica desamparado.
E o que pode ser feito?
Propomos o projeto "Bem Viver". Ele funciona de forma semelhante a uma creche: o familiar leva o idoso pela manhã para um espaço estruturado, onde ele recebe alimentação, cuidados médicos, participa de atividades lúdicas, se socializa e, no fim do dia, volta para casa. Isso evita o rompimento do vínculo familiar, ao contrário de um asilo de longa permanência. Ele volta para casa feliz, contando histórias e ativo. É a obrigação do Estado cuidar disso, pois é um problema social que se agravará muito nos próximos anos se não agirmos agora.
Como foi implantar a política para animais?
O foco principal é cuidar dos animais abandonados nas ruas, o que hoje é também uma questão de saúde pública. Muitos moradores de rua têm pets e andam com eles, e esses animais precisam de assistência para evitar a transmissão de doenças. Desde a época em que fui secretário de Meio Ambiente, iniciamos essas políticas. Construímos o primeiro hospital veterinário público do DF usando recursos de compensação ambiental, e também o primeiro castramóvel. Tudo se conecta na questão ambiental e no bem-estar, em viver de forma harmoniosa com a natureza e com as pessoas. Na época de eleição, todo mundo quer tirar foto com cachorro para ganhar votos, mas nós do Partido Verde efetivamente implantamos essas políticas. O hospital público, por exemplo, foi feito adaptando galpões que estavam abandonados. Infelizmente, apenas a primeira etapa foi concluída. Os outros galpões deveriam servir para triagem e internação dos animais, o que ainda não ocorreu.
E o que foi feito para incentivar esse cuidado aos animais?
Pensando também nos protetores de animais, que enfrentam imensas dificuldades com vacinação, alimentação e o desgaste de transportar dezenas de cães para feiras de adoção, nós criamos uma ferramenta digital. Trata-se de um aplicativo que funcionará como um "Tinder dos animais". Os protetores cadastram as fotos, características e localização dos pets, e as pessoas interessadas em adotar podem dar o "match". Isso facilitará muito a vida de todos e ajudará os animais a encontrarem um lar.
O PV faz parte de uma federação com o PCdoB e o PT. Como estão os preparativos para a campanha do Leandro Grass ao GDF?
Desde o início nós estamos apoiando o Leandro Grass, um político jovem, muito bem preparado e alinhado com os nossos problemas. Quando apresentei a ele a proposta do espaço para idosos vulneráveis, algumas pessoas questionaram de onde sairia o recurso. Eu sempre digo: precisamos parar com a síndrome do vira-lata de achar que o país é subdesenvolvido e não tem dinheiro. Nós temos uma das maiores economias do mundo. O que precisamos é saber aplicar os recursos com integridade. Não dá para aceitar desvios de recursos públicos na casa dos bilhões enquanto falta verba para projetos sociais básicos.
E como o senhor demonstrou isso a ele?
Quando fui secretário, nosso orçamento era praticamente zero, apenas para custeio, e mesmo assim construímos 15 parques usando a câmara de compensação ambiental. É preciso querer fazer e querer servir. Na política atual, as pessoas precisam pesquisar os candidatos além das propostas genéricas de "mais saúde e mais segurança".
O senhor virá candidato a algum cargo?
Eu sou pré-candidato a deputado distrital. O voto para distrital costuma ser o último que o eleitor decide, muitas vezes na boca da urna, por indicação de parentes. Mas o deputado distrital é o equivalente ao vereador; é quem está mais próximo do cidadão e define o destino dos recursos que impactam o seu dia a dia. É preciso pesquisar e escolher com consciência.
Como o senhor avalia a montagem da chapa da federação e a sua candidatura para esse cargo?
Nós acreditamos muito no campo progressista e na renovação política. A federação está muito bem estruturada, reunindo partidos e candidatos fortes. O Partido Verde já conta com o deputado federal Professor Reginaldo Veras, e eu entendi que, como deputado distrital, poderei trabalhar de forma mais direta pela população. Quero ser o candidato do voto de opinião, representando tanto o Plano Piloto quanto às regiões administrativas como Ceilândia, Sol Nascente e Samambaia. Minha candidatura é baseada em propostas concretas para o meio ambiente, parques, resíduos sólidos, proteção animal, idosos vulneráveis e também para a inclusão. Eu sou pai atípico e sei perfeitamente a dificuldade e o sofrimento de uma família que tem um filho com necessidades especiais e não encontra o suporte necessário do Estado. Não vou apenas prometer "mais saúde"; meu compromisso é com políticas públicas específicas que melhorem a vida do cidadão.
A direita no DF tem apresentado múltiplos candidatos e enfrentado crises em suas alianças. Por outro lado, a esquerda não está unida. Como o senhor avalia esse cenário?
É natural que cada partido busque viabilizar seus próprios projetos no início. Lembro-me de quando disputei o governo e, no segundo turno, o Agnelo Queiroz me ligou dizendo que a eleição tinha ido para o segundo turno por minha causa e pediu apoio. No entanto, tenho muita esperança de que consigamos unir o nosso campo político. Esse tipo de aliança costuma se definir nos acertos finais da convenção. O que tenho dito ao Leandro Grass é que a situação é parecida com a Seleção Brasileira na Copa do Mundo: se você quer ser campeão, não pode escolher adversário. O caminho é ir para as ruas, conversar com as pessoas, apresentar propostas e pedir que o eleitor faça uma escolha consciente, independentemente de rótulos de direita, esquerda ou centro. Na executiva nacional da federação, vemos que os arranjos estaduais muitas vezes superam essas barreiras ideológicas. O que importa são os projetos e o diálogo com a população.

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